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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Transformar a Batalha em Dança

This is a portuguese translation of the original article published in The Starry Cave, entitled To Turn a Battle into Dance. If you are an english reader, please click here to visit the author's blog and read the original text.



Transformar a Batalha em Dança

Provocação é algo que todos nós experimentamos, seja por acaso ou deliberadamente. Uma palavra impensada dita num momento inoportuno ou a ação precipitada que damos ao mundo em um dia ruim pode convidar o conflito. Às vezes as pessoas provocam algum tipo de reação porque se sentem mal com elas mesmas ou porque sofrem de inveja. Em outros momentos, é o medir de força, ou buscam vencer uma discussão para que se sintam melhor com elas mesma ou com a filosofia que tomam como bússola em suas vidas. Não há limite para o que pode nos provocar e, por isso, em vez de acolher a energia negativa de uma provocação, é melhor dar um passo para trás e ver o que podemos fazer com a provocação. Para Oscar Wilde a resposta para uma provocação era pagá-la com bondade, pois nada provocaria mais do que isso.


Ifá põe iwa rere no centro da fortuna — um caráter alegre, calmo e próspero. Se é isso o que buscamos manter, qualquer provocação será somente uma dança, e não uma batalha. No odu Ogùndábàrà encontramos uma história sobre Obara, um jovem poder vigoroso associado com um Sango jovem e imaturo (o espírito do trovão e fogo) que desafiou Ogun. Ogun é o patriarca dos caçadores, um poder primordial que deu origem as estradas, ferreiros, e foi fundamental na criação da humanidade. Podemos dizer que Ogun é a própria forja, enquanto Obara representa apenas o fogo — um produto mais jovem da forja. Nesta história Obara aparentemente provoca Ogun ao ponto de que ele está determinado a matar Obara, mas ao invés disso ele faz ebo/sacrifício. Neste caso, seu sacrifício foi uma mudança de atitude na qual ele percebe que poderia entreter a provocação de Obara, mas como uma dança e não uma batalha. O verso diz o que se segue:
Rìtìrìtì ni ojú ijó
Rìtìrìtì ni ojú ìja
A dífá fún Ògún
Nlo ba Òbàrà já ìjà kan
Wòn nì Ògún á dáa
Sùgbón ki Ògún wá sebo
Kí Òbàrà má baà kú síi lórùn
Ó gbó ó Ru
Wón ní adie kìí ba adìe já ki ó kú
Agbòn ìràwé kìí wúwo
Kí ó d’éru pa’ni

Na tradução de Karenga: 

Tumultuoso é o local da dança
Tumultuoso é o local da batalha
Este foi o ensinamento de Ifá para Ogun
Quando este estava indo se engajar na batalha com Obara
Eles disseram que Ogun atuaria bem
Mas que Ogun deveria fazer sacrifício
Para que Obara não fosse morto na
Peleja
Ele [Ogun] ouviu e sacrificou
Eles disseram que um pássaro não deveria lutar
Com outro pássaro até a morte
E uma cesta de folhas secas não é forte o suficiente,
Que seu conteúdo deva matar alguém

Esta é uma boa atitude para se manter quando confrontado com provocações em geral, pois se vemos a batalha como uma dança onde ‘golpeamos’ nosso provocador com ‘folhas secas’, podemos ensinar uma lição — e ganhar uma lição, embora também devamos ter em mente que a dança - dentre o povo iorubano - é vista como [composta de] movimentos cósmicos. A dança pode interpretar os movimentos das estrelas, ela pode levar a vida desorganizada de volta à harmonia e pode ser utilizada como divinação ou como um veículo para o diagnóstico de doenças. Em última análise, a dança tem o poder de curar e a dança de cura é realizada por pessoas que possuem iwa rere — um caráter jovial e calmo. Foi com esta atitude que Ogun tomou o desafio de Obara, sabendo que ele era mais velho, mais sábio e mais forte — ainda assim, estamos todos juntos na dança da vida, neste mercado que é a nossa jornada. Ogun entendeu isso e abraçou o desafio com interesse e alegria e não como uma batalha. Certamente esta é uma atitude mais digna quando confrontados com provocação — na verdade, esta atitude tem em si um fio socrático e nesta existem mais metas para a ampliação de horizontes de compreensão do que a provação de um ponto ou a definição de quem está certo e quem está errado. A batalha que se transforma em uma dança de palavras e opiniões estimulando e recompensando mutuamente — e nisso a dança cósmica de alegria e harmonia é replicada. Ase O!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Tradição, Verdade & Labor



This text was originally written in english and posted in The Starry Cave. Our english untamed readers may read the original text clicking here.


Tradição, Verdade & Labor


A idéia de ‘tradição’ está sujeita a uma variedade de interpretações — e isso não é surpreendente, dado os vários campos da atividade humana nos quais vemos esta palavra utilizada. Podemos falar de uma receita de queijo tradicional pela mera virtude de ser passada por gerações. Há uma sucessão estendida ao longo do tempo que passa adiante dado conhecimento. Neste sentido, qualquer coisa que virtualmente passou pela história pode ser entendida como tradicional.

Quando falamos de tradição em relação a culto, fé e doutrina — quando nos aventuramos dentro dos campos do sagrado e das cavernas de mistério, uma determinada visão de mundo é que está sujeita a sucessão ou transmissão.

A visão de mundo tradicional é geralmente chamada de perene e replica uma visão de mundo encantada, típica para a era pré-moderna, onde o visível e o invisível compartilhavam do mesmo espaço. A exposição mais clara da doutrina tradicional, neste sentido, é encontrada em Platão e seus sucessores neoplatônicos; poderíamos falar de uma sucessão filosófica que remonta ao início dos tempos — mas com uma referência comum em Platão e o mundo das Idéias.

O início do tempo marca a divisão entre a Era de Saturno, a era de ouro que antecede a Júpiter estabelecendo leis e o tempo. Lei e tempo existem como base para a visão de mundo moderna — ou paradigma moderno, caso prefira. A Lei se manifesta na demanda por ordem, simetria, dualidade e taxonomias normativas em qualquer campo da atividade humana, em todos os domínios possíveis. Taxonomias são naturalmente heurísticas úteis para se movimentar no mundo, mas, basicamente, a taxonomia é apenas uma tentativa de exegese descritiva daquilo que uma coisa ou objeto possa ser. Estas descrições são sempre conferidas em relação a um posicionamento específico no tempo — onde a pessoa que faz o processo descritivo é em si um produto do tempo, história, cultura e geografia. Por isso a taxonomia tende a estabelecer o mesmo a partir do outro, isolar algo ao rejeitar sua ligação com outras coisas.

A ordenação tradicional se diferencia da taxonomia moderna por estar enraizada nas idéias, princípios eternos que podem se manifestar em incontáveis variações. Ao invés de descrever uma manifestação em relação a outros objetos e coisas manifestas, ordem busca revelar a origem, a natureza essencial do manifesto. É uma visão baseada na percepção vertical e não na percepção horizontal tão típica das leis e tempo que regem a era moderna.

Isto significa que a tradição, a fim de ser tradicional em um contexto sagrado, deve estar arraigada em uma conexão com a fonte e as idéias eternas. Isto vem com uma hierarquia muitas vezes apresentada como uma corrente dourada do ser, onde a mente pura emana idéias eternas até atingir a manifestação. A manifestação é um complexo, pois todas as coisas manifestas são compostas de várias idéias — no entanto, com uma essência inerente que lhes dão um sentido particular.

A visão de mundo tradicional é como o pólo situado em uma visão cósmica e na compreensão de todas as coisas emanando do Um, e finalmente, criando o vasto campo da experiência humana. A experiência humana é um binário. Ao andarmos pelo mundo da experiência, também estamos gerando o nosso próprio mundo interno. Há dois planos diferentes — mas certamente nosso mundo interno evoca as idéias eternas, ainda que na forma de uma mistura, um agrupamento. A bússola para organizar nosso mundo interno é a psique ou alma, e eros. A alma é a extensão divina em todos os seres humanos e eros é a própria força da criação manifesta no amor, avidez, atração e rejeição.

Nosso mundo interior é novamente um binário — ou melhor, uma encruzilhada — pois é mediada pela a alma que encontramos em um dado conjunto de predisposições no organismo humano e no momento que temos a nossa primeira respiração, quando somos confrontados com um ambiente e mundo único. Nossa alma divina e as faíscas da vida interior começam sua jornada em direção a autodescoberta.

A jornada humana, com todo o seu amargor e dulçor, rejeição e atração, amor e miséria, é o que faz a nossa condição humana. Temas gnósticos típicos vêem o mundo da matéria como uma prisão, ou como o próprio Inferno. Também pode ser visto como uma aventura, onde qualquer um se torna herói e tolo, ou como uma piada cósmica. Não importa qual idéia abraçamos para vincular a tela da experiência humana, a condição permanece — e com esta a jornada rumo ao Self.

Tal jornada está nas premissas tradicionais, feita com o auxílio do coração ligado à fonte e uma alma acompanhada por daimons. Esta jornada é para o homem moderno uma corrida de ambição e depressão, onde o propósito é visto na aclamação e aceitação social. Não existe conflito per se nisto, exceto que o homem e a mulher tradicional saberão por que as escolhas são feitas e as estradas são tomadas e não buscarão a ambição pela ambição — mas porque isto era o que estava reservado pelo o seu próprio Destino.

Há uma aceitação da doutrina sagrada e ordem celestial na perspectiva tradicional, uma certa humildade diante da Verdade que pode provocar o presumível orgulho do espírito da modernidade, que descarta o Destino e o Caminho em favor da ambição e da auto-glorificação. Em vez de encontrar seu Self, há uma tendência de se criar um Self que só possui um valor temporal, passageiro, vazio de uma virtude eterna.

Uma perspectiva tradicional terá o foco na Verdade — a Verdade em si como algo dinâmico e ativo, e muito pouco das taxonomias modernas que visam a separação e oposição. A Verdade é sempre Uma — e possui muitos raios e radiações, pois a natureza da Verdade é entender pela virtude da sabedoria, e sabedoria é o que move as idéias eternas. E ao fim somos deixados nas Encruzilhadas da vida, com as cadeias de escolhas que nos aproxima do Self ou se afastam dele. Sobre estas duas perspectivas e seus paradoxos, William Blake diz o seguinte:

Uma Imagem Divina

A Crueldade tem um coração humano,
E a Inveja uma face humana;
O Terror, a divina forma humana,
E o Segredo a roupa humana.

A roupa humana é forjada de ferro,
A forma humana é de fogo forjada,
A face humana estabelecida em um forno,
O coração humano em uma garganta faminta.

Eternidade

Aquele que se prende ao prazer
Destrói a alada vida;
Mas aquele que beija o prazer enquanto ela voa
Vive no alvorecer da eternidade.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Àjé - Os Pássaros das Noites Negras das Almas

You, our untamed english reader, may read this clarifying text, Àjé - The Birds of the Souls Darker Nights, from the original source, the Starry Cave, clicking here.

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Àjé - Os Pássaros das Noites Negras das Almas
por Nicholaj de Mattos Frisvold




O termo iorubá àjé, carrega associações com o movimento e a troca — devemos entendê-lo como um mercado noturno exposto em raios de prata. Este mercado noturno é compreendido como uma aglomeração de aves predatórias e de longos bicos.

O conceito de àjé foi igualado no Novo Mundo e no Ocidente Moderno com o termo ‘bruxa’ – e isso é verdade, na medida em que entendemos o que é uma bruxa nas premissas africanas. Àjé é considerado um poder que algumas pessoas possuem por herança, iniciação ou nascimento. É considerado um excesso de àse (poder natural) – e, portanto, deve ser mantido sob controle e em equilíbrio para evitar danos ao portador de àjé e da própria comunidade. Àjé é a profundeza emocionai primordial da feminilidade. Não é uma força geradora – pelo contrário. A doce e graciosa Òsún é o poder gerador e fértil. Àjé e sua mãe Ìyàmí Òsòròngà são esterilidade e alteridade, a feminilidade antes do primeiro sangue e o lamento sobre último sangue. Isso significa que os poderes de àjé agem sobre o campo da possibilidade. Àjé é como o rizoma de um fungo ou como um lótus que se move por milhas sob a terra, manifestando-se em picos de poder aqui e ali – mas sua verdadeira essência é uma rede fosfórica de possibilidades subterrâneas que podem ou não vir à manifestação.

Ifá nos conta que foi na vibração divina conhecida como Odú Òsá Méjí que o poder conhecido como àjé veio à terra. Tal odú também fala sobre como dois Òrìsà masculinos, Obàtálá e Ògún, e um feminino, Òdù, vieram à terra para esculpi-la e moldá-la. Olodumare deu a Obàtálá o poder e maestria de esculpir e a Ògún o poder da metalurgia. À Òdù ele deu o poder de conceber a vida – a ela deu a maternidade e disse que ela era a sustentadora do mundo. Ela deveria sustentar o mundo com uma cabaça específica. Dentro desta cabaça havia um pássaro. Ela declarou que usaria este magnífico àse para lutar contra aqueles que a desrespeitassem e para defender aqueles que a adorassem. Este pássaro era àjé – e Òdú tomando conta deste pássaro se torna Ìyàmí Òsòròngà, que podemos entender o significado como “Minha Misteriosa Mãe; Dona dos Pássaros da Noite”.

E é por isso que Obàtálá afirma o seguinte neste òdú, que anuncia a descida dos pássaros do outro mundo sobre a terra:

Obarisa disse que as pessoas devem sempre respeitar
Grandemente as mulheres
Pois, se eles sempre respeitarem grandemente as mulheres, o mundo
Estará na ordem certa
Prestai homenagem; mostre respeito às mulheres
Decerto, foi a mulher quem nos trouxe à existência
Antes de nos tornarmos reconhecidos como seres humanos
A sabedoria deste mundo pertence às mulheres
Então respeite as mulheres
Seguramente, foram elas quem nos trouxeram
À existência
Antes de nos tornarmos reconhecidos como seres humanos

Naturalmente, o dom da maternidade vem com um intenso campo de variáveis emocionais sensibilizadas que ocorrem durante a menstruação, gestação e menopausa. Estes são os picos das marés aos segredos da maternidade, à raiva e a cólera em seu estado bruto. Por isso, àjés são ‘pássaros’ que habitam, infestam e se alimentam de nossas emoções, sujam ou curam nossa alma. Nisso reside a admoestação em numerosos versos e provérbios de Ifá nos aconselhando – e especialmente os homens – para se prostrar diante de Odú – ou ao útero e à mulher e prestar-lhe respeito, para fazer ipese; o sacrifício que acalma o útero.

É dito que Ìyàmí esteja “sentada sobre Òdù”, que ela esteja coroando os poderes femininos ou que Òdú é uma Ìyàmí. Ela também é referida como Ìyàmí eleye “A Dona dos pássaros” e Ìyà Àgbà “A anciã é respeitável” e Ìyàmí Òsòròngà, que significa “Minha mãe a Poderosa Feiticeira ou Bruxa”. Isso levanta algumas questões controversas, já que a bruxaria é associada tanto com atos anti-sociais, bem como ao poder natural acessível às mulheres e membros das sociedades como egbéeleye e egbé ìmùlè, onde os segredos da manipulação de poderes sobrenaturais são preservados. A bruxaria anti-social decorrente de àjé burúkú é triste, mas há também outro tipo de “bruxa” referida como àjé rere. A diferença é o caráter. A palavra burúkú se refere á tudo o que é mau, quebrado e corrupto. Por exemplo, o termo Orí burúkú significa uma pessoa incapaz de fazer escolhas que sejam boas para ele ou ela, e que são consideradas incômodas e destrutivas para si e para a sociedade.

Rere, por outro lado, é também é usado alternadamente com Ìwá pélé, e refere-se ao estado de contentamento e felicidade, onde o caráter de alguém é bom benevolente para a sociedade e para si. Os comentários do historiador nigeriano Lawal a respeito das mulheres são de que sejam menos fortes fisicamente e assim foram abençoadas com uma forma especial de astúcia, ogbón ayé, que também carrega a conotação de dolo ou malícia. Ainda assim, a importância do caráter e a sustentação de uma consciência calma e boa é a todo o momento enfatizada. Ainda hoje temos provérbios entre os iorubás referentes à influência das àjés como ‘ninhos de pássaros no cabelo da pessoa’. Isso é revelador pelo fato do cabelo carregar um significado simbólico de ser algo indomado e selvagem, que embaraça e deve ser direcionado se a pessoa deseja um crescimento positivo. Por conta disso, o Orí (consciência/cabeça física) muitas vezes é adornado para embelezar o próprio cabelo e moldá-lo com cuidado para decorar o Orí/cabeça, como uma forma de apaziguar e fazer com que a cabeça fique mais calma.

Há outro elemento que deve ser comentado. É o elemento ancestral. Ìyámí é considerada como a ancestral progenitora do sexo feminino, assim como Osó é o progenitor do sexo masculino. Talvez isso signifique que enquanto Ìyámí representa a feminilidade suprema e transcendente, Osó represente estes mesmos pontos para a masculinidade. Osó recebe seu àse do reino de Èsù, identificando tal entidade no reino da mudança e transformação. Pode-se entender, talvez, que Àjé e Osó sejam o mesmo poder essencial, mas compreendidos em duas direções diferentes pelo ritmo natural da criação e que se tornam algo totalmente diferente – como a masculinidade bruta e original e a feminilidade bruta e original. Isso também pode ser visto no reflexo destes cultos, onde Osó está profundamente relacionado ao culto de Orìsà Oko, o orìsà da Fazenda e serve como um juiz e intermediador nos casos de acusação de bruxaria. Ele é considerado como uma força calma e tranqüila, justo e sábio com um profundo conhecimento sobre bruxaria e feitiçaria. Possivelmente se encontra em Osó o homem idealizado espelhado nas formas de Orìsà Oko? Pode-se ver isso pelos pássaros sagrados à Ìyámi e Osó também. Os pássaros de Ìyámí são predadores, enquanto no caso de Osó, o abutre é sagrado, um pássaro que não caça a nada que não seja aquilo que já está morto. Ele não é um predador, mas um purificador. Essa pode ser uma explicação para a respectiva relação ancestral relacionada a essas duas potências espirituais, suas similaridades e diferenças. Ela também se harmoniza com a visão iorubá do cosmos, e nas palavras de Lawal: “como uma interação dinâmica dos opostos, como o céu e a terra, dia e noite, macho e fêmea, físico e metafísico, corpo e alma, dentro e fora, quente e frio, sólido e flexível, esquerda e direita, vida e morte, sucesso e insucesso e assim por diante.”

Há uma crença no Novo Mundo de que há algum tipo de inimizade entre as àjé e Ifá – mas Òrúnmìlà em sua capacidade de grande pacificador entende a necessidade destes poderes e como a abundância de ase pode beneficiar a humanidade. Este mistério está guardado na sociedade de Ogboni, onde a dinâmica tradicional de poder entre a mão esquerda e a mão direita é entendida e usada. Não só isso, mas o peso e a qualidade das cores aqui também são preservados, pois toda a manifestação e seu potencial vêm nas cores vermelho, preto e branco – que são graus de misericórdia, frieza e calor. Em última análise, estamos falando do mistério da tensão emocional e cósmica e como apaziguá-la.

Pode-se perguntar, no entanto, por que é importante entender estes poderes, por que eles são tão essenciais para o trabalho de Ifá, por que essas forças destrutivas estão presentes no mundo. A explicação para tal mistério é maravilhosa e magnífica – e um raio de sua magnificência é encontrado no Òdù Òsá Méjì, onde podemos ler:

Ogbon kan nbe ní kùn omo àsá Ìmóràn kan nbe kìkùn omo àwòdì Òkan nínúù re Okan ninúù mi Okòòkàn níkùn ara wa Sefá fún Òrúnmilà Ifá nlo bá àjémulè Mòrèrè Wón ni nítorìi kìnni Ò ní nìtorì kì nkan òun lègún gègèègè ni

Tradução:

O gavião tem uma sabedoria
O falcão possui um conhecimento
Um em minha mente
Outro na sua mente
Cada um deles em nossas mentes
Estas foram as declarações de Ifá para Òrúnmìlà
quando entraram em uma aliança com as bruxas em Mòrèrè
Elas perguntaram a ele porque ele estava fazendo isso
Ele respondeu que assim seria para que sua vida fosse perfeitamente organizada


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Ol’ Hornie e o Diabo - Bruxaria Tradicional

Neste interessante ensaio, Nicholaj de Mattos Frisvold nos traz mais palavras importantes para a compreensão do Diabo na Bruxaria Tradicional, a função do Magister de um Cuveen de Bruxaria quando assume a posição do Diabo ao tomar o Forcado, e o eixo que este assume trazendo a comunhão dos Antepassados com os Anjos no Campo dos Vivos.

...Em um cuveen de Bruxaria Tradicional, o Magister com seu forcado representa o Ol’ Hornie (o Velho Chifrudo). Através deste ofício, ele também é chamado de “Diabo”, mas não podemos confundir esta identificação, “Diabo”, com seu conteúdo normativo cristão - como uma força em oposição anti-cósmica ao plano divino, e assim, com o conteúdo lido como se fosse o ofício de “Satã”, ou ainda no vernáculo moderno, um promotor. Vemos a necessidade do foco nos chifres, se dados a Moisés por Michelangelo ou pela Igreja aos espíritos misteriosos da terra e as manifestações noturnas das bestas domésticas...


domingo, 2 de outubro de 2011

A Bruxaria Tradicional e suas diversas Manifestações

Atavismo de Spare
A Bruxaria Tradicional é um termo que engloba diversas vertentes da Arte Sem Nome. O termo foi cunhado exatamente para diferir as formas de Bruxaria anteriores ao advento da Bruxaria Moderna. Muitos caminhos podem ser definidos como Bruxaria Tradicional, mas cada qual contém suas particularidades.

Existem formas da Arte que contém um panteão específico de deuses, outras trabalham unicamente com espíritos da terra, sem uma devoção para algum tipo de divindade, enquanto outras são totalmente cristãs.

Draku-Qayin, discorreu sobre o tema, apresentando elementos específicos de alguns caminhos de Bruxaria Tradicional mais conhecidos.

..."Apesar do termo Bruxaria Tradicional ser um termo genérico que engloba todas essas diferentes práticas sob este título, não é possível generalizar que toda a Bruxaria Tradicional é isso ou é aquilo; por exemplo, é impossível generalizar que a Bruxaria Tradicional é pagã, assim como é impossível generalizar que ela é cristã, afinal, existem vertentes que trabalham com espíritos oriundos de culturas pagãs, assim como existem aquelas que trabalham com santos da Igreja Católica. A maioria dos Bruxos Tradicionais definem sua Arte como um Ofício, uma Habilidade conferida pelas Forças que regem a sua Bruxaria, mas há aqueles que vêem sua Arte de uma maneira mais devocional e religiosa. Tal é a diversidade que enriquece a Arte Bruxa, como o Dragão com suas miríades escamas luminosas, cada escama contendo um Arcano específico. E é exatamente por isso que, muitas vezes, a Bruxaria Tradicional é referida como “a Arte Sem Nome”...

- Leia mais em: Bruxaria Tradicional

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Papa Legba: O Senhor dos Caminhos

O Vodou Haitiano é um culto extremamente feiticeiro, nascido de uma fusão natural entre as crenças e práticas dos africanos escravizados levados para o Haiti com as práticas de Bruxaria européia provindas da França.

Neste ensaio, o primeiro de uma série, Adriano de Carvalho (Draku-Qayin) nos fala sobre Papa Legba, um dos principais lwa dos cultos de Vodou, sem o qual nada é possível.

Papa Legba é o Senhor das Encruzilhadas e dos Caminhos, o portador das chaves entre os mundos dos homens e dos espíritos, e é ele quem garante a comunicação entre ambos os mundos.


Papa Legba é associado ao sol, e é visto como o doador da vida. É ele que transfere o poder de Bondye para o mundo material, e tudo o que vive nele. Isso fortalece ainda mais seu papel como a ponte entre os mundos. Sua posição como intercessor de Bondye faz dele um Lwa da Ordem e do Destino.


sábado, 28 de maio de 2011

O Diabo Cor de Rosa


Em O Diabo Cor de Rosa, Qelimath expressa de forma clara os sinais visíveis de como a nova geração de bruxos trata uma das figuras centrais da Bruxaria Tradicional, ou melhor, expõe como essa nova geração de 'bruxos', modernamente criados, esquecem de manifestações que ainda estão presentes, mas em seus últimos suspiros de vivência.

Na contramão do que ocorre na Europa, que tenta reunir o máximo de dados culturais para recompor e recontar sua história, o brasileiro, descendente natural bem mais jovem, não demonstra esta preocupação. Esta gente brasileira, cuja população jovem reinava há uns dez anos atrás, deva começar a se preocupar em preservar sua cultura multifacetada antes que ela se perca na poeira do tempo.

Há, certamente, uma despreocupação entre os novos peregrinos com estas questões. Provavelmente, nós, os jovens, acreditamos que a nossa contribuição para as próximas gerações será criada, ou reinventada, para os padrões mais modernos, fantasiando que padrões tradicionais não sirvam para o nosso futuro. E nessa ânsia por estar ligado a um mundo tecnológico e moderno, acabam por esquecer-se daqueles que construíram a tradição de sua própria terra: Na contramão, a arte das benzedeiras e curandeiros perdidos nos rincões deste país enorme, que trazem não só as características principais das artes bruxas, mas também, uma história rica de encantamentos e que podem ser traçados de volta para diversos países europeus, é prontamente desprezada na velocidade de um clique.

O reflexo desse comportamento moderno é uma tentativa de clarear, suavizar ou abrandar as imagens da Bruxaria Tradicional: O Cornudo, pobre esquecido, o grande homem-bode de falo ereto e cheiro almiscarado, desce do pedestal de Diabo do Sabbath, vermelho como o sangue dos marginais heréticos, azulando-se de horror aos representantes gays no tal chamado ‘culto de fertilidade’. Ele finalmente chega aos nossos dias ganhando tons rosados – de tanto branqueamento - pela nova geração de ‘jovens bruxas’.

A preocupação da autora é como a de muitos outros peregrinos da Bruxaria Tradicional. É manter viva a Tradição, como uma herança daqueles que já se foram e um tesouro para aqueles que virão logo.

Leia O Diabo Cor de Rosa na íntegra clicando aqui: O Diabo Cor de Rosa.

Introdução: Em resposta aos sentimentos de aversão em relação à figura folclórica e arquetípica da Bruxa, houve uma subseqüente e colossal campanha de ‘branqueamento’ anexada ao ressurgimento de sua sobrevivência. Este ressurgimento ocorreu, em sua forma mais pública e popular, em uma forma de culto menos ‘nociva’ à moral cristã que permeia os costumes e usos da nossa sociedade.

Diante disto, é conveniente fazermos um balanço, uma análise do custo desta grande abertura de mercado diante das formas mais tradicionais do Ofício, mais habituadas a se manterem pequenas e secretas e menos preocupadas com a opinião pública e moral vigente.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

A Bruxa de Vênus

 

A Bruxa de Vênus é uma excelente contribuição para os interessados em compreenderem a Bruxaria Tradicional e o seu princípio da Verdade. O uso da filosofia platônica facilita a compreensão deste princípio: “Verdade, como Platão disse, é o que é belo e bom. Adotando-se estes adjetivos como apropriados, significa que verdade deve ser tanto bela – quanto boa. Platão compreendeu que o que é bom, deve possuir um apelo racional e levar a uma sensação que deveremos chamar amor, e assim isto deve ser abraçado e levar às boas ações. É aqui que a beleza entra. A afirmação de beleza valida a idéia racional.”


O autor concede chaves para compreender melhor termos como verdade e tradição e ainda aconselha sobre  como a verdade deve ser tratada, principalmente quando a cosmovisão moderna está inclinada a não perceber corretamente este princípio: “[...] se sua verdade gera malícia, é uma mentira.” A advertência é feita pois a verdade, sendo ela boa e bela, deve estar distante de algo que gere a maldade, visto que, ao nosso redor estão disponíveis uma míriade de Tradições 'verdadeiras', mas nem sempre estas estão em harmonia com aquilo que se busca dentro de uma Tradição: “[...] algo tradicional é realmente passado através das gerações, material ou espiritualmente, mas no espírito da verdade, o que significa que precisa ser bom e belo. [...] A bondade e beleza das tradições se tornam marcas que lhe fazem genuína”.  Estes princípios, poderiam ser comparados ao fluxo divino que percorre as artérias de uma tradição, conferindo-lhe vida e a mantendo viva.


Introdução: “Como a Bruxaria pode ser compreendida de um ponto de vista Tradicional? A questão demanda um esclarecimento de termos, especificamente o que é bruxaria e em que implica o termo ‘tradicional’. Começando pelo último, tradição, são dadas muitas interpretações estranhas, muito comumente falando de sua hereditariedade arcana, e de formas puramente lineares e modernamente históricas. Isto significa que nossa cosmovisão moderna tende a impor uma hegemonia entre oposições, visando o consenso que não é necessariamente verdadeiro, mas que reflete uma aliança gerada pelo discurso contemporâneo. Isto deve nos dizer que os termos modernos tendem a ser frágeis, como todo discurso é por natureza frágil e volátil – sujeito às mudanças discursivas como são. A fragmentação da verdade em opinião pessoal, e a dificuldade entre a oposição para se alcançar a verdade testemunha a dificuldade de se descobrir o que está realmente no nome, um termo e um conceito. Isto porque hoje a verdade é significada pelo acordo, não pela descoberta do que é. Verdade, como Platão disse, é o que é belo e bom. Adotando-se estes adjetivos como apropriados, significa que verdade deve ser tanto bela – quanto boa. Platão compreendeu que o que é bom, deve possuir um apelo racional e levar a uma sensação que deveremos chamar amor, e assim isto deve ser abraçado e levar às boas ações. É aqui que a beleza entra. A afirmação de beleza valida a idéia racional.”  


O texto foi escrito por Nicholaj de Mattos Frisvold e está disponível em duas línguas, português e inglês:-


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