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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Transformar a Batalha em Dança

This is a portuguese translation of the original article published in The Starry Cave, entitled To Turn a Battle into Dance. If you are an english reader, please click here to visit the author's blog and read the original text.



Transformar a Batalha em Dança

Provocação é algo que todos nós experimentamos, seja por acaso ou deliberadamente. Uma palavra impensada dita num momento inoportuno ou a ação precipitada que damos ao mundo em um dia ruim pode convidar o conflito. Às vezes as pessoas provocam algum tipo de reação porque se sentem mal com elas mesmas ou porque sofrem de inveja. Em outros momentos, é o medir de força, ou buscam vencer uma discussão para que se sintam melhor com elas mesma ou com a filosofia que tomam como bússola em suas vidas. Não há limite para o que pode nos provocar e, por isso, em vez de acolher a energia negativa de uma provocação, é melhor dar um passo para trás e ver o que podemos fazer com a provocação. Para Oscar Wilde a resposta para uma provocação era pagá-la com bondade, pois nada provocaria mais do que isso.


Ifá põe iwa rere no centro da fortuna — um caráter alegre, calmo e próspero. Se é isso o que buscamos manter, qualquer provocação será somente uma dança, e não uma batalha. No odu Ogùndábàrà encontramos uma história sobre Obara, um jovem poder vigoroso associado com um Sango jovem e imaturo (o espírito do trovão e fogo) que desafiou Ogun. Ogun é o patriarca dos caçadores, um poder primordial que deu origem as estradas, ferreiros, e foi fundamental na criação da humanidade. Podemos dizer que Ogun é a própria forja, enquanto Obara representa apenas o fogo — um produto mais jovem da forja. Nesta história Obara aparentemente provoca Ogun ao ponto de que ele está determinado a matar Obara, mas ao invés disso ele faz ebo/sacrifício. Neste caso, seu sacrifício foi uma mudança de atitude na qual ele percebe que poderia entreter a provocação de Obara, mas como uma dança e não uma batalha. O verso diz o que se segue:
Rìtìrìtì ni ojú ijó
Rìtìrìtì ni ojú ìja
A dífá fún Ògún
Nlo ba Òbàrà já ìjà kan
Wòn nì Ògún á dáa
Sùgbón ki Ògún wá sebo
Kí Òbàrà má baà kú síi lórùn
Ó gbó ó Ru
Wón ní adie kìí ba adìe já ki ó kú
Agbòn ìràwé kìí wúwo
Kí ó d’éru pa’ni

Na tradução de Karenga: 

Tumultuoso é o local da dança
Tumultuoso é o local da batalha
Este foi o ensinamento de Ifá para Ogun
Quando este estava indo se engajar na batalha com Obara
Eles disseram que Ogun atuaria bem
Mas que Ogun deveria fazer sacrifício
Para que Obara não fosse morto na
Peleja
Ele [Ogun] ouviu e sacrificou
Eles disseram que um pássaro não deveria lutar
Com outro pássaro até a morte
E uma cesta de folhas secas não é forte o suficiente,
Que seu conteúdo deva matar alguém

Esta é uma boa atitude para se manter quando confrontado com provocações em geral, pois se vemos a batalha como uma dança onde ‘golpeamos’ nosso provocador com ‘folhas secas’, podemos ensinar uma lição — e ganhar uma lição, embora também devamos ter em mente que a dança - dentre o povo iorubano - é vista como [composta de] movimentos cósmicos. A dança pode interpretar os movimentos das estrelas, ela pode levar a vida desorganizada de volta à harmonia e pode ser utilizada como divinação ou como um veículo para o diagnóstico de doenças. Em última análise, a dança tem o poder de curar e a dança de cura é realizada por pessoas que possuem iwa rere — um caráter jovial e calmo. Foi com esta atitude que Ogun tomou o desafio de Obara, sabendo que ele era mais velho, mais sábio e mais forte — ainda assim, estamos todos juntos na dança da vida, neste mercado que é a nossa jornada. Ogun entendeu isso e abraçou o desafio com interesse e alegria e não como uma batalha. Certamente esta é uma atitude mais digna quando confrontados com provocação — na verdade, esta atitude tem em si um fio socrático e nesta existem mais metas para a ampliação de horizontes de compreensão do que a provação de um ponto ou a definição de quem está certo e quem está errado. A batalha que se transforma em uma dança de palavras e opiniões estimulando e recompensando mutuamente — e nisso a dança cósmica de alegria e harmonia é replicada. Ase O!

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Tradição, Verdade & Labor



This text was originally written in english and posted in The Starry Cave. Our english untamed readers may read the original text clicking here.


Tradição, Verdade & Labor


A idéia de ‘tradição’ está sujeita a uma variedade de interpretações — e isso não é surpreendente, dado os vários campos da atividade humana nos quais vemos esta palavra utilizada. Podemos falar de uma receita de queijo tradicional pela mera virtude de ser passada por gerações. Há uma sucessão estendida ao longo do tempo que passa adiante dado conhecimento. Neste sentido, qualquer coisa que virtualmente passou pela história pode ser entendida como tradicional.

Quando falamos de tradição em relação a culto, fé e doutrina — quando nos aventuramos dentro dos campos do sagrado e das cavernas de mistério, uma determinada visão de mundo é que está sujeita a sucessão ou transmissão.

A visão de mundo tradicional é geralmente chamada de perene e replica uma visão de mundo encantada, típica para a era pré-moderna, onde o visível e o invisível compartilhavam do mesmo espaço. A exposição mais clara da doutrina tradicional, neste sentido, é encontrada em Platão e seus sucessores neoplatônicos; poderíamos falar de uma sucessão filosófica que remonta ao início dos tempos — mas com uma referência comum em Platão e o mundo das Idéias.

O início do tempo marca a divisão entre a Era de Saturno, a era de ouro que antecede a Júpiter estabelecendo leis e o tempo. Lei e tempo existem como base para a visão de mundo moderna — ou paradigma moderno, caso prefira. A Lei se manifesta na demanda por ordem, simetria, dualidade e taxonomias normativas em qualquer campo da atividade humana, em todos os domínios possíveis. Taxonomias são naturalmente heurísticas úteis para se movimentar no mundo, mas, basicamente, a taxonomia é apenas uma tentativa de exegese descritiva daquilo que uma coisa ou objeto possa ser. Estas descrições são sempre conferidas em relação a um posicionamento específico no tempo — onde a pessoa que faz o processo descritivo é em si um produto do tempo, história, cultura e geografia. Por isso a taxonomia tende a estabelecer o mesmo a partir do outro, isolar algo ao rejeitar sua ligação com outras coisas.

A ordenação tradicional se diferencia da taxonomia moderna por estar enraizada nas idéias, princípios eternos que podem se manifestar em incontáveis variações. Ao invés de descrever uma manifestação em relação a outros objetos e coisas manifestas, ordem busca revelar a origem, a natureza essencial do manifesto. É uma visão baseada na percepção vertical e não na percepção horizontal tão típica das leis e tempo que regem a era moderna.

Isto significa que a tradição, a fim de ser tradicional em um contexto sagrado, deve estar arraigada em uma conexão com a fonte e as idéias eternas. Isto vem com uma hierarquia muitas vezes apresentada como uma corrente dourada do ser, onde a mente pura emana idéias eternas até atingir a manifestação. A manifestação é um complexo, pois todas as coisas manifestas são compostas de várias idéias — no entanto, com uma essência inerente que lhes dão um sentido particular.

A visão de mundo tradicional é como o pólo situado em uma visão cósmica e na compreensão de todas as coisas emanando do Um, e finalmente, criando o vasto campo da experiência humana. A experiência humana é um binário. Ao andarmos pelo mundo da experiência, também estamos gerando o nosso próprio mundo interno. Há dois planos diferentes — mas certamente nosso mundo interno evoca as idéias eternas, ainda que na forma de uma mistura, um agrupamento. A bússola para organizar nosso mundo interno é a psique ou alma, e eros. A alma é a extensão divina em todos os seres humanos e eros é a própria força da criação manifesta no amor, avidez, atração e rejeição.

Nosso mundo interior é novamente um binário — ou melhor, uma encruzilhada — pois é mediada pela a alma que encontramos em um dado conjunto de predisposições no organismo humano e no momento que temos a nossa primeira respiração, quando somos confrontados com um ambiente e mundo único. Nossa alma divina e as faíscas da vida interior começam sua jornada em direção a autodescoberta.

A jornada humana, com todo o seu amargor e dulçor, rejeição e atração, amor e miséria, é o que faz a nossa condição humana. Temas gnósticos típicos vêem o mundo da matéria como uma prisão, ou como o próprio Inferno. Também pode ser visto como uma aventura, onde qualquer um se torna herói e tolo, ou como uma piada cósmica. Não importa qual idéia abraçamos para vincular a tela da experiência humana, a condição permanece — e com esta a jornada rumo ao Self.

Tal jornada está nas premissas tradicionais, feita com o auxílio do coração ligado à fonte e uma alma acompanhada por daimons. Esta jornada é para o homem moderno uma corrida de ambição e depressão, onde o propósito é visto na aclamação e aceitação social. Não existe conflito per se nisto, exceto que o homem e a mulher tradicional saberão por que as escolhas são feitas e as estradas são tomadas e não buscarão a ambição pela ambição — mas porque isto era o que estava reservado pelo o seu próprio Destino.

Há uma aceitação da doutrina sagrada e ordem celestial na perspectiva tradicional, uma certa humildade diante da Verdade que pode provocar o presumível orgulho do espírito da modernidade, que descarta o Destino e o Caminho em favor da ambição e da auto-glorificação. Em vez de encontrar seu Self, há uma tendência de se criar um Self que só possui um valor temporal, passageiro, vazio de uma virtude eterna.

Uma perspectiva tradicional terá o foco na Verdade — a Verdade em si como algo dinâmico e ativo, e muito pouco das taxonomias modernas que visam a separação e oposição. A Verdade é sempre Uma — e possui muitos raios e radiações, pois a natureza da Verdade é entender pela virtude da sabedoria, e sabedoria é o que move as idéias eternas. E ao fim somos deixados nas Encruzilhadas da vida, com as cadeias de escolhas que nos aproxima do Self ou se afastam dele. Sobre estas duas perspectivas e seus paradoxos, William Blake diz o seguinte:

Uma Imagem Divina

A Crueldade tem um coração humano,
E a Inveja uma face humana;
O Terror, a divina forma humana,
E o Segredo a roupa humana.

A roupa humana é forjada de ferro,
A forma humana é de fogo forjada,
A face humana estabelecida em um forno,
O coração humano em uma garganta faminta.

Eternidade

Aquele que se prende ao prazer
Destrói a alada vida;
Mas aquele que beija o prazer enquanto ela voa
Vive no alvorecer da eternidade.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Abordar com Interesse

Este texto é uma tradução do original 'To Approach with Interest', postado inicialmente no blog The Starry Cave.

For our untamed english reader, please read click here to enjoy a great journey into the teachings of Ifá.



Abordar com Interesse
por Nicholaj de Mattos Frisvold

O alicerce da filosofia de Ifá é de que todos nós nascemos bons e abençoados e que somos seres divinos em uma jornada humana. A jornada humana é simbolizada pelo mercado e pela viagem em si. O mercado é um local onde o bom e o mal podem ser feitos, onde roubos e verdades se misturam. A viagem em si significa um movimento de um lugar para outro, onde no entremeio o inesperado pode ocorrer. Ifá diz que no final de qualquer viagem bem feita, há uma cama de paz e tranquilidade para aqueles que utilizaram iwá rere (bom caráter) como suas bússolas nesta viagem.

Ifá ensina que a criação foi causada pelo o sonho da luz que se tornou visível no odu Eji Ogbè, que significa a elevação de ambas as mãos em direção ao céu – pois com o nascimento da luz veio também o seu contraste, Òyèkú méjì, que significa escuridão, o fim dos ciclos e a inalação que faz de Ogbè ativo. A idéia de levantar ambas as mãos ao céu implica em aceitar inícios e fins, luz e escuridão, com igual reverência e gratidão.

O omo odu Ogbè’wori fala da necessidade de transformação no mundo, sobre como não podemos reconhecer a doçura do mel a menos que também tenhamos sentido a amargura do orogbo (o amargor da noz da cola). Um dos versos nos conta:

Ogbè’worí
B’áye wón ba ndùn
B’áye wón bá ndàra
Ìwá ibàjé wón nhú


Tradução:
Quando a vida é doce para eles
Quando a vida é boa para eles
É quando eles começam a se comportar mal

O infortúnio e as complicações não são necessariamente a mesma coisa; uma complicação pode se tornar um infortúnio se abordarmos com resistência e negatividade. Quando assim o fazemos, alimentamos a complicação em nossa vida com orações pedindo para que mais complicações sejam trazidas para nós. No entanto, se abordarmos com interesse e tranquilidade, alimentamos as complicações com luz e bondade.

Ifá é inflexível quanto a importância da ancestralidade; na verdade, todo o corpo de Odu Ifá é a sabedoria dos ancestrais. Ao tomar consciência das situações no passado e suas soluções, podemos efetivamente transformar situações indesejáveis em prosperidade, as complicações em abundância. Outro verso no livro de Ogbé fala sobre como o próprio Orunmila saiu em viagem encontrando o infortúnio, e não a abundância que ele procurava. O verso conta como ele saiu das águas de sua confusão emocional e pediu em lamento aos ‘dezesseis donos do mercado’ pela ajuda do pássaro chamado Agbe (Touraco Musophagidae). O pássaro azul Agbe é um anunciador de boa fortuna e diz-se expor os tesouros escondidos de Olokun, o dono do Oceano, quando a ele é solicitado. O verso também fala sobre como Orunmila fez o sacrifício apropriado, neste caso uma mudança de atitude, onde sua consciência errática foi acalmada e neste calmo estado de espírito ele foi capaz de lembrar da longa corrente de vitoriosas conquistas que o levaram a este momento difícil.

O ensinamento é que as complicações em nossa jornada rumo à abundância também convidam a uma oportunidade ímpar para outras formas de vitória - enquanto nos aproximarmos com interesse e não com resistência, pois em cada dificuldade reside a promessa da vitória. De certo modo podemos dizer que Ifá vê complicações e dificuldades apenas como uma situação – a coloração é dada pela forma que abordamos a situação. Ogbé’rosún diz o seguinte:

Ogbè’rosùn
A dífá fún Òrúnmìlà
Ifá nsawo lo àpá òkun
T’òun ìlà méjì òsà
Nílé olójà mérìndínlógún
Wón ní Baba ò nìí padà dele
Baba wá m’ekún s’ekún ìgbe
Ó fi ìyèrè se ìyèrè aro
Ó nÍ: Agbe gbé mi dele o ò Agbe
A kìí rajo k’á má dele o
Agbe gbé mi dele o
Kò pé kò jìnnà
E wá bá ni bá àrúsé ogun
Àjàse ogun l’á wá wá


Tradução:
Os ensinamentos Ifá foram interpretados
Para Orunmila
Quando ele estava indo em uma missão espiritual
Na costa do oceano
Quando ele estava no meio da lagoa
Na casa dos dezesseis donos do
Mercado
Eles disseram que Baba Orunmila nunca
Voltaria para casa
Mas ocorreu que Baba Orunmila começou
A chorar de forma poderosa, transformando
Seu choro em um grito alto
E ele converteu seu lamento em um canto
de tristeza
Ele bradou, dizendo: pássaro Agbe, leve-me para casa
Oh Agbe
Nós não vamos a uma viagem de modo que não possamos
Voltar para casa
Então, pássaro Agbe, por favor, leve-me para casa
E depois, em pouco tempo e em um futuro não muito distante
Venha e junte-se a nós na vitória alcançada
Através do sacrifício
Vitóriosos na dificuldade, como chegarmos a ser

sexta-feira, 9 de março de 2012

A Tinta das Estrelas

You, our untamed english reader, may read this starry text, The Ink of Stars, from the original source, the Starry Cave, clicking here.


A Tinta das Estrelas
por Nicholaj de Mattos Frisvold


Nada acontece ao homem que a natureza não o tenha preparado para suportar.
(Marcus Aurelius)

O homem moderno constantemente tenta com muito esforço compreender o mundo, a dar sentido à sua posição no mundo – com a razão de sua experiência de mundo ser como é. É constantemente um exército de perguntas que invadem a vida do homem moderno; questões enraizadas na pergunta ‘por que’ as coisas são como são. Para os tradicionalistas estas questões eram facilmente respondidas – tudo se tratava de olhar para as estrelas e perceber a marca celestial ímpar que o fez ser quem você é.

A astrologia teve um avivamento conforme entravamos na era moderna – mas neste avivamento as considerações práticas e pragmáticas da astrologia foram esquecidas, e a astrologia foi reformada segundo os desejos do homem moderno. Ela se tornou uma ferramenta para a busca da alma – para revelar quem realmente somos – porém, a astrologia clássica está disposta de forma a fornecer todos os indícios em torno de sua vida e sonhos, para que seja possível você perceber quem você é. Deixe-me dar um exemplo atual bem próximo do coração de muitos homens e mulheres – como entender o sofrimento, os sonhos e o destino?

Nossa vida é aquilo que imaginamos ser. São nossas esperanças e sonhos, nossos medos e pesadelos que se unem como algo único para trazer à existência o caminho particular que poreja diante de sua Alma. A Imaginação é a matéria da criação – o que somos capazes de imaginar é um potencial a ser usado, abusado ou descartado.

Na astrologia clássica, a 11ª casa, de acordo com Júlio Materno, é a casa de nosso bom daimon, e a 12ª de nosso mau daimon – daí vemos a natureza afortunada da 11ª casa e o infortúnio atribuído à 12ª. Estas duas casas servem como um suporte para a 10ª, que revela o que o Destino e a fama podem nos dar. É nesta tríade que o drama de nossa vida se desenrola.

Abu Mash’ar diz que a 11ª casa é a casa da esperança, fortuna, riquezas e fama, enquanto a décima segunda é relacionada ao sofrimento e inimigos. A décima é relativa aos deveres, reputação e fortuna – é uma casa real, o reino das memórias. Tudo isso nasce a partir da primeira casa, nosso horóscopo, definido pelo signo ascendente – ‘o regente sobre o corpo e a vida do próprio homem, e todos os seus empreendimentos’ (Introductions to Traditional Astrology. Cazimi Press. p. 71).

Nossos sofrimentos e esperanças, nossos inimigos e verdadeiros amigos são todos conseqüências do ditame de Destino na 1ª casa, onde a 10ª nos dá a  fórmula e restrição para alcançar a plenitude de Destino. Há certo jogo entre imaginação e manifestação na 11ª e 12ª casas que são, em última análise, dependentes das regras do jogo dadas na 10ª para efetivar com sucesso o Destino dado na primeira casa.

Isso significa que todos somos variações únicas das possibilidades divinas escritas com tinta estelar nesta terra. A congregação dos daimons que chegaram ao nosso nascimento marca nossa estrela ascendente – ela nos dá a dinâmica particular que encobre o self (eu) e nos ajuda a desenvolver a individualidade. Mas os regentes de nossa vida e corpo não são nossas almas. Nossa alma reside na 11ª casa… que é a casa do amor.

Não importa o que o Destino determine, amor e eros é aquela evanescência daemônica que nos coloca em alinhamento com o self (Eu) e Destino. Um guerreiro governado pelo ódio é dominado pela 12ª casa – ele cumprirá seu dever por meios que levem ao sofrimento. Um guerreiro dominado pela 10ª casa terá um claro senso de propósito e estará pronto para aceitar seu Destino a qualquer momento.

Ser fiel ao Destino jaz na habilidade de fazer o que fazemos como se fosse nosso último ato – há um abandono imprudente nisso e como deveríamos abordar a vida. Isto se apóia na crença de que o que quer que aconteça, assim há de ser porque assim o imaginamos, ou por determinação de Destino – de qualquer forma, é relacionado à forma como acolhemos Destino e as conseqüências – como crianças e desajustes de nossa própria criação.

Certamente podemos escolher viver em ilusão – imaginando nossos próprios falsos amigos – mas isso convocará a ação da 12ª casa em nossa vida e o sofrimento será nossa maldição. É melhor tratar tudo o que ouvimos como opinião, e tudo o que vemos como perspectiva, pois assim podemos nos reservar ao conforto da alma à busca da verdade, descansando seguros de que o que quer que tenhamos como fardos e bênçãos, Destino sabe exatamente que podemos carregá-los ao trono de Feliz Destino.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Da natureza das Deusas Mães

A mãe que concede ao filho o aconchego, a nutrição e as condições necessárias para a criança cresça é a mesma que guarda dentro de si o desapego e a frieza capaz de matar sua cria.

Este aspecto pouco visto e mostrado das Deusas Mães é o tema abordado pelo novo post do blog Cerealia. 

"Está no âmago das deusas mães da terra a natureza dúbia da maternidade - as que criam e que destroem, as que ganham e que perdem, sempre."

Neste post, a autora abordando o papel das deusas mães, observa que num papel de deusa mãe, aquela que apenas cria - e nunca destrói - é uma deusa incompleta, pois a mãe que possui o poder de dar a vida, é a mesma que possui o poder de tirá-la:

"Para punir homens e deuses, Deméter faz com que não haja colheita. Ou seja, sem alimento,  a mãe priva seus filhos de sua parcela de vida. A nutridora se transforma naquela que nega, que pune e que faz com que todos morram pela privação. Esse é o lado negro de um dos aspectos de Deméter: a mãe que nega sua natureza essencial de nutridora. E com isso traz a escassez e a morte. Eu não acredito em deuses feitos inteiramente de bondade, que cuidam de todos e que amam seus filhos. Dentro dessa perspectiva é muito natural que Deméter seja a mãe que nutre e que mata".

O assunto parece bem simples, mas ele abre um leque abrangente - e polêmico - de diversos outros assuntos. Para ler o texto completo, visite o blog da autora, Cerealia, ou clique aqui.


quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A Bruxaria Tradicional e o Trabalho com os Demônios

“Uma vez que abrimos os olhos a esta outra dimensão, quando de fato enfrentamos o desafio e podemos compreender o quão real ela é, podemos nos valer do livre-arbítrio e fecharmos os olhos novamente, ou nos preenchermos do velado poder do ‘Espírito Santo’ para nos preparar para o próximo ciclo. O ‘Espírito Santo’ é o poder que escapa nas rachaduras da abóbada celeste, que dá sua atenção somente àqueles de verdadeiro potencial espiritual, dentro do que os peregrinos chamam de Basílica da Santidade Negra. Aqui está o ponto onde se separa o Santo do Mundano, pois este processo é o do despojamento último, da nudez total de todos os valores morais agregados ao ser. Só assim somos capazes de descobrirmos a biografia dos demônios e consequentemente, os nossos”.

O texto A Bruxaria Tradicional e o Trabalho com os Demônios, trata de questões que em alguns momentos podem passar despercebidas. No início do ensaio, Qelimath fala sobre como a verdade é percebida individualmente, e que durante o trilhar do Caminho, a cada novo passo, é oferecido ao peregrino a capacidade de perceber a mudança, seja dessa verdade individual, seja da forma como ela é percebida: “A realidade muda de acordo com o que se experimenta e só através da disposição de uma experimentação mais ampla se é capaz de alcançar uma fração maior da sabedoria.”

É mencionado novamente a Encruzilhada, o encontro de dois caminhos, onde o peregrino fará escolhas: “Tal escolha exigirá bravura em um nível raramente experimentado anteriormente: a saída da zona de conforto para um turbilhão de experiências que irão muitas vezes nos tirar todo o chão. [...] Aqui cabe adicionar que o trabalho deste nível é destinado aos fortes de espírito, àqueles que não se deixam abater por seus demônios traduzidos em neuroses e paranóias. A meta é encontrar o ponto onde negação e afirmação se alinha no fortalecimento do ser. Não é um caminho para muitos, mas um dos caminhos.”


Boa leitura!


sábado, 8 de outubro de 2011

Bruxas e Heróis - Semi-deuses ou humanos ordinários com vidas extraordinárias?

Qelimath nos traz mais uma reflexão interessante sobre Bruxas e Heróis pela visão da Bruxaria Tradicional.

A Escolha de Heraclés - 1596, de Annibale Carracci.
O mito pode ser lido em  Memorabilia (Xenofonte, II, 1)
Em outras tradições pagãs [não confundir com o paganismo contemporâneo] que cruzam o mundo, a idéia de iniciação significa (ou significava) exatamente esta possibilidade: a do neófito ou peregrino “renascer” como “filho” ou “protegido” por uma determinada deidade tutelar. Encontramos exemplos deste tipo de significado nos rituais iniciáticos que consagraram César para Vênus, ou Alexandre, o Grande, para Amon. César era, com todo o direito conferido pelos sacerdotes de Vênus um "semi-deus" – um ser de dois mundos caminhando sobre a Terra, um humano extraordinário. Toda a idéia de santos tutelares do cristianismo é proveniente desta raiz, embora ela tenha vindo castrada de todas as características libertárias (e libertinas) do que era ser um deus.


domingo, 5 de junho de 2011

A Lei Natural de Eros

The english version of this text may be read in Speculum Celestae, clicking here if you are an english reader.



A Lei Natural de Eros

Debates a respeito do natural e o perverso estão surgindo constantemente. Homossexualidade e práticas sexuais ‘incomuns’ de qualquer variedade geralmente chamam a atenção, pois aqui, no mundo do sexo, todos os homens e mulheres encontram suas inclinações mais puras e sua escuridão mais crua.  A escala nestes debates está entre as inclinações pessoais sensuais, em como elas são mediadas com uma moral universalista que insiste que todos possuem as mesmas inclinações sensuais — e aqueles que escapam do lícito são considerados  pervertidos — ou pior. Estes discursos morais são, quase sempre, ditados sobre motivos religiosos, propagando uma escala muito curiosa entre a liberdade e o pecado, e a vergonha das  inclinações. Neste clima de ‘uma moral que serve para todos’ a resistência chega naturalmente à superfície.

Os debates que vemos hoje podem ser ancorados no século XI e nos debates eclesiásticos sobre a Lei Natural — aqui encontramos São Tomás de Aquino, que realmente nos disse para olharmos para a natureza para que pudéssemos ver o que era natural, desde que ele não considerava o sexo como algo particularmente sagrado — mas sim algo que os humanos compartilhavam com todos os outros animais.

No Livro de sua Summa, Tomás discute as questões da Lei. Dada a orientação platônica e a influência muçulmana as quais Tomás foi sujeito, podemos supor que ele, ao falar da Lei Divina, não estava falando de shari’ah, mas da essência do próprio Islã — submeter-se a Lei Divina, como Abdullah, um escravo de Deus. Essa idéia certamente envolve a doutrina do Destino e como todos nós nascemos com um condicionamento único, que permite um único caminho (lei) para a obtenção da bondade em nossas vidas. Ser um escravo de Deus implica que descobrimos a única lei que nos conduz à abundância, como uma extensão da Lei Divina. Como espelhos de Deus, nós, enquanto humanos, também refletimos todas as suas possibilidades espelhadas em seus 99 maravilhosos nomes. Há, portanto, uma distinção entre a Lei escrita e a Lei natural.

A distinção entre a Lei escrita e a Lei natural também está incorporada no cristianismo, nos evangelhos que falam da missão de Jesus Cristo. O que é evidente é que Jesus se considerava um profeta da lei eterna, escrita no coração de cada um nós. Aqui encontramos a divisão entre Lei, como um conjunto de regras de conduta vazio de razão. 'Siga a lei escrita e você não pode errar’ parece ser a mensagem, e a Lei transformada em um conjunto de regras que não precisa de razão para trazer a salvação. A lei eterna escrita em nossos corações segue uma dinâmica que necessita que estejamos conscientes sobre nossas ações e motivações. Infelizmente, a consciência está sendo gradualmente substituída pela temporalidade e interpretações morais dominando o momento sócio-espacial.

É a lei escrita no coração dos homens que Tomás de Aquino discute em sua Summa. É esta Lei que ao longo do tempo foi reinterpretada à luz moral e que deu origem à doutrina eclesiástica sobre o pecado e a sexualidade como a conhecemos atualmente no Ocidente. Tomás, por outro lado, foi acusado pelos teólogos posteriores de ser ingênuo nestas questões. Bem, a ingenuidade dele é a mesma posição que encontramos no tasawwuf (Sufismo), Advaita Vedanta e diversas linhas de pensamento místico.

No terceiro artigo do segundo Livro, Tomás trata a lei como uma forma de medida racional e vê a Lei eterna como algo em que temos uma participação única. Corretamente ele sugere aqui que a capacidade para a tentação é uma consequência da natureza da própria Lei, portanto, natural — porém, mais importante, ele diz:

“Primeiramente, na medida em que ele inclina diretamente seus súditos a algo; às vezes súditos distintos a atos diferentes, e neste sentido podemos dizer que há uma lei militares e outra mercantil. Em segundo lugar, indiretamente, e deste modo, ao destituir a dignidade de um de seus súditos, este passa para outra ordem e assim sob outra lei. Assim, se um soldado é expulso do exército, ele se torna sujeito à legislação rural ou mercantil.”

Estes comentários são similares ao que encontramos no Bhagavad Gita quando o texto discute a lei, isto é, dharma e karma. A Lei está sujeita ao que se pretende fazer — se o trabalho de alguém muda, por exemplo, então o mesmo acontece com as regras de conduta. A Lei concede uma passagem diferente para aquilo que é lícito e bom. Falando de forma simples, um soldado possui o dever de matar — esta é a lei pela qual ele vive, enquanto um comerciante vive de acordo com outras regras que valorizam outros atos no lugar de matar. Tudo é flutuante — e aqui estamos falando de papéis sociais. Ela deve, logicamente, se tornar mais rica em nuances quando medimos a Lei com a medida da natureza de uma substância, tal como encontramos em uma pessoa. O que Tomás tentou dizer é que existem algumas regras de conduta que são universalmente boas, pois elas refletem nossa Divindade. Todas estas são qualidades que marcam uma pessoa como portadoras de um bom caráter, que é proveniente do próprio Amor.

No sexto artigo Tomás é mais especifico quando diz:

“várias criaturas têm várias inclinações naturais, de tal modo que aquilo que é, por assim dizer, uma lei para um, é contrária a lei de um cão, embora oposta à lei de uma ovelha ou outro animal manso.”

O que causa uma divergência entre o homem animal e os outros animais é a presença da consciência. Mas isso é algo que é desenvolvido e não automaticamente atingido, como o Salmo 48:21 nos diz: “O homem, quando estava em honra, não entendia: ele fora comparado às bestas inconscientes, e feito como eles.”

O que ele simplesmente diz é que com o advento da razão ocorre uma maior capacidade de discernimento. Até que a razão seja desenvolvida no homem, ele é uma besta orientada pelos impulsos da sensualidade, e como um animal humano ele é dirigido pela lei natural como qualquer outro animal que age de acordo com suas inclinações e impulsos. Com a razão, as inclinações podem tomar forma e se tornam expressões de nosso dharma. Aqueles que exercitam as inclinações naturais do prazer são fiéis a si mesmos — enquanto que aqueles que censuram a si com o archote da condenação revelam que são vítimas do chamariz da culpa. Através disso eles negam a eles próprios...

Esta distinção que Tomás faz entre os impulsos sensuais e a extensão da Lei divina conforme ela toma forma na razão é interessante. Ela pode ser interpretada como se as inclinações sensuais não estão sujeitas à Lei divina — mas ao desenrolar natural da própria naturalidade, quando agimos de acordo com nossa natureza, na forma de uma besta, vazios de razão — podemos dizer que a Lei divina tem precedência em qualquer forma, exceto como provendo uma sombra para as inclinações sensuais mediadas por um único coração?

A razão pode nos ajudar no entendimento de nossas inclinações sensuais; ela pode ser uma soberana serena que dá sentido às nossas inclinações e através disto, abrir as vias para o eterno. Esta possibilidade está aberta, não pela negação das inclinações — mas ao permitir que elas sejam mediadas pela razão e a sensibilidade às harmonias naturais.

“E assim, a lei do homem, que pela ordenação Divina é a ele atribuída, segundo a sua própria condição natural, é que ele deveria agir em conformidade com a razão”, conclui Tomás. E com isso podemos resumir que nossas inclinações sensuais, em toda sua rica variedade, na medida em que traz felicidade — é simplesmente algo natural que agregado à razão pode trazer a bondade a abundância. A questão parece não confundir os planos como tantos moralistas odiosos tendem a fazer quando dizem que toda a criação de Deus é uniforme e singular — uma criatura das massas...

... Nisso, o sábio Eros pode germinar e revelar a grandeza criativa do Criador!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Uma Apreensão dos Tempos Modernos




Na coletividade bruxa, atualmente tem-se dilatado o campo de intervenção do concebo, acolá da sua intervenção tradicional na edificação do ‘ser’, sendo o feiticeiro chamado a intervir nos campos da reprodução hábil, se tratando das artes bruxas comuns ou ponto que fornece um elo entre todas as eras em todos os lugares do mundo sob efeito e foco do que era feito a façanha das bruxas antigas. 

Naturalmente, um dos seus dons sempre foi e ainda é, o de criar.

As “culturas”, ainda contêm o papel cada vez mais decisivo na preparação e entendimento de concepções a cerca da bruxaria localizada em determinado território, e esta, por sua vez não pode ser propagada para o todo, tão somente se for adaptada ao ponto diverso do original, adequada de forma a não romper com sua alma.

A ciência que estuda, examina e pesquisa, explora e observa, descobre e ensina as artes bruxas (witchcraft), outrora denominada pelas línguas latinas como Bruxaria, pretende abordar e explanar, em que medida, com que processos, e em que circunstâncias, as Artes Bruxas, concorreram para a formação do que ela é entendida hoje, ao se moldarem pelas ideologias de sábios e sistemas culturais retirados de sociedades antigas, dos quais seus segredos foram re-interpretados ou não em tempos modernos, (tendo particular atenção ao caso do exoterismo), que é notório e confabula muito para a criação de artigos sobre o tema, bem como participaram - direta ou indiretamente - nas contradições, nas tensões e nas crises dos diversos momentos da história da bruxaria do século XX, em contrapartida de um legado esotérico e feiticeiro transmitido linearmente de forma hermética nos limiares dos Covines de bruxaria tradicional.

- Leia mais em: Congrega Lupino


Bruxaria, o que você é afinal?

Neste texto, o autor Agatho Vanth, expressa suas opiniões sobre como ele enxerga a bruxaria: uma religião ou uma religiosidade? Vale a pena conferir.

"Eu já tive as mais extensas dúvidas quando comecei, hoje, encontrei argumentos que me satisfazem para definir a bruxaria como um ofício que atrai para si uma religiosidade. Gostaria de conversar sobre isso com quem concorda e com quem discorda, pois não vim ensinar, mas apenas falar sobre como vejo e sinto algo que pratico e amo.

(...)

Ora vejam vocês, o que a bruxa é senão uma servidora da humanidade! Ela é chamada para predizer o futuro, para curar uma doença, para dar fertilidade a um casal, para tirar ou pôr uma maldição, para abençoar um recém nascido ou um campo recém plantado, é ela quem canta para os espíritos maus e os afasta ou os atrai para a cidade, é ela quem dá o tônico para o homem cansado, que ensina a jovem a arrumar um bom marido, que cura a praga nos campos, que dá o veneno para a futura viúva rica, enfim, é a criatura que permeia a sociedade dando aquilo que ela precisa para satisfazer seus desejos - uns nobres, outros nem tanto".

- Leia mais em: Arte Sábia