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domingo, 24 de fevereiro de 2013

Transformar a Batalha em Dança

This is a portuguese translation of the original article published in The Starry Cave, entitled To Turn a Battle into Dance. If you are an english reader, please click here to visit the author's blog and read the original text.



Transformar a Batalha em Dança

Provocação é algo que todos nós experimentamos, seja por acaso ou deliberadamente. Uma palavra impensada dita num momento inoportuno ou a ação precipitada que damos ao mundo em um dia ruim pode convidar o conflito. Às vezes as pessoas provocam algum tipo de reação porque se sentem mal com elas mesmas ou porque sofrem de inveja. Em outros momentos, é o medir de força, ou buscam vencer uma discussão para que se sintam melhor com elas mesma ou com a filosofia que tomam como bússola em suas vidas. Não há limite para o que pode nos provocar e, por isso, em vez de acolher a energia negativa de uma provocação, é melhor dar um passo para trás e ver o que podemos fazer com a provocação. Para Oscar Wilde a resposta para uma provocação era pagá-la com bondade, pois nada provocaria mais do que isso.


Ifá põe iwa rere no centro da fortuna — um caráter alegre, calmo e próspero. Se é isso o que buscamos manter, qualquer provocação será somente uma dança, e não uma batalha. No odu Ogùndábàrà encontramos uma história sobre Obara, um jovem poder vigoroso associado com um Sango jovem e imaturo (o espírito do trovão e fogo) que desafiou Ogun. Ogun é o patriarca dos caçadores, um poder primordial que deu origem as estradas, ferreiros, e foi fundamental na criação da humanidade. Podemos dizer que Ogun é a própria forja, enquanto Obara representa apenas o fogo — um produto mais jovem da forja. Nesta história Obara aparentemente provoca Ogun ao ponto de que ele está determinado a matar Obara, mas ao invés disso ele faz ebo/sacrifício. Neste caso, seu sacrifício foi uma mudança de atitude na qual ele percebe que poderia entreter a provocação de Obara, mas como uma dança e não uma batalha. O verso diz o que se segue:
Rìtìrìtì ni ojú ijó
Rìtìrìtì ni ojú ìja
A dífá fún Ògún
Nlo ba Òbàrà já ìjà kan
Wòn nì Ògún á dáa
Sùgbón ki Ògún wá sebo
Kí Òbàrà má baà kú síi lórùn
Ó gbó ó Ru
Wón ní adie kìí ba adìe já ki ó kú
Agbòn ìràwé kìí wúwo
Kí ó d’éru pa’ni

Na tradução de Karenga: 

Tumultuoso é o local da dança
Tumultuoso é o local da batalha
Este foi o ensinamento de Ifá para Ogun
Quando este estava indo se engajar na batalha com Obara
Eles disseram que Ogun atuaria bem
Mas que Ogun deveria fazer sacrifício
Para que Obara não fosse morto na
Peleja
Ele [Ogun] ouviu e sacrificou
Eles disseram que um pássaro não deveria lutar
Com outro pássaro até a morte
E uma cesta de folhas secas não é forte o suficiente,
Que seu conteúdo deva matar alguém

Esta é uma boa atitude para se manter quando confrontado com provocações em geral, pois se vemos a batalha como uma dança onde ‘golpeamos’ nosso provocador com ‘folhas secas’, podemos ensinar uma lição — e ganhar uma lição, embora também devamos ter em mente que a dança - dentre o povo iorubano - é vista como [composta de] movimentos cósmicos. A dança pode interpretar os movimentos das estrelas, ela pode levar a vida desorganizada de volta à harmonia e pode ser utilizada como divinação ou como um veículo para o diagnóstico de doenças. Em última análise, a dança tem o poder de curar e a dança de cura é realizada por pessoas que possuem iwa rere — um caráter jovial e calmo. Foi com esta atitude que Ogun tomou o desafio de Obara, sabendo que ele era mais velho, mais sábio e mais forte — ainda assim, estamos todos juntos na dança da vida, neste mercado que é a nossa jornada. Ogun entendeu isso e abraçou o desafio com interesse e alegria e não como uma batalha. Certamente esta é uma atitude mais digna quando confrontados com provocação — na verdade, esta atitude tem em si um fio socrático e nesta existem mais metas para a ampliação de horizontes de compreensão do que a provação de um ponto ou a definição de quem está certo e quem está errado. A batalha que se transforma em uma dança de palavras e opiniões estimulando e recompensando mutuamente — e nisso a dança cósmica de alegria e harmonia é replicada. Ase O!

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Lilith Mashkim Ninanna

This article has been firstly publicated in The Starry Cave. Click here to read the original post, in english.




As idéias neopagãs contemporâneas de Lilith tendem a vê-la como um tipo de espírito de regozijo extático e potência sexual feminina. Na mesma linha, há também tentativas de mesclagem de Lilith com Belili e Baalat, dado o motivo de ambos os nomes se referirem a uma ‘bela donzela’. De fato, esses epitáfios remetem a Astarte-Ishtar como a Rainha destes espíritos inquietos e perturbadores.

Lilith, em si, é um espírito verdadeiramente perigoso, a Rainha dos lilins — sendo ela própria a filha eclíptica de Ishtar. Lilith é a volátil potência venusiana equilibrada em si, porém, propensa a semear desarmonia e frustração. Ela é uma protetora-bruxa, mas também é uma mãe que se alimenta dos seus. O mistério dela fala do princípio antes dos inícios e sua graça é medo e lágrimas. Sua amabilidade são os buracos negros de estrelas que explodem...

Se observarmos os textos ugaríticos a nossa disposição, como Maqlû e, claro, a história de Gilgamesh, o que surgirá é que  Astarte-Ishtar é na verdade a Rainha das ‘belas donzelas’ — das hostis, bem como das benevolentes — pois elas integralizam a sua totalidade.

Lilith, assim como Astarte-Ishtar, dispõe de asas. A presença de asas sugere várias questões; sendo uma delas a relação com os ventos e a conexão com o Mundo Inferior, sendo outra. O último motivo é encontrado no poema da descida de Ishtar ao Mundo inferior, onde lemos que os habitantes estão ‘vestidos como pássaros, com asas como indumentária’. Há, para os espíritos e divindades possuidores de asas, uma agilidade para se mover entre estados e reinos.

Demônios femininos em geral possuem asas e, neste caso, os ventos possuem importância primordial. Na Mesopotâmia os ventos e seus espíritos foram de grande importância. Os ventos traziam presságios, bênçãos, demônios — e doenças. Um vento frio no norte durante a noite seria julgado como mau agouro, assim como uma brisa fresca do leste durante o dia poderia ser visto como uma hoste de espíritos bem-vindos soprando sobre a terra. O Maqlû fala de Ardat-lili como uma ‘mulher de gelo’ e Lilith sendo um vento gelado do norte. Encontramos aqui os espíritos lilin definidos pelos ventos gélidos, frios e noturnos. Todos nós testemunhamos ventos frios que sopram durante a noite, que curvam os galhos das árvores e geram certa atmosfera de ameaça e perigo. Estes são os ventos das asas de Lilith, quando ela procura uma porta ou janela que possa lhe acolher.

Alguns dizem que Lilith gerou a lua — mas isso é incorreto, pois os lilin são espíritos que carregam os ventos da Vênus noturna. Eles florescem na luz lunar — o olho divino que os espreita, observa, cuida — mas a idéia de que Lilith é uma deusa lunar é muito provavelmente incorreta, mesmo que as belas donzelas banhem-se nas águas prateadas da lua...

Ela é a bela donzela que domina leões, como Astarte-Ishtar — este tema carrega um significado profundo — e um deles é o do espírito que domina os poderes da coroa da realeza. Podemos compreender isso ao assumir Astarte-Ishtar como se fosse os poderes na coroa real e lilin como forças que a suportam — e no caso de rebelião, atacam. Isto significa que os efeitos nocivos de lilin em nossa vida são sempre uma conseqüência do acolhimento destes espíritos ao permitir que ‘o leão se torne selvagem’...


Nos textos ugaríticos disponíveis, encontramos a palavra KI-SIKIL-LIL-LA, mencionado como um chamado à ‘bela donzela’. Na verdade, esta é uma palavra de poder replicando a natureza mágica no crujar da coruja. Vemos este encantamento ou partes (Kilili) dele sendo utilizados em referência ao espírito Orina lili que se diz ser a ‘rainha na janela’, utilizado tanto para apaziguar este espírito quanto para afastá-lo. Uma pessoa doente ao ver uma coruja em sua janela pode ter certeza que está sendo visitado por lilins e pode utilizar a janela para recitar contra-conjurações para expulsar os espíritos da doença. A doença implícita apoiaria mais a conexão com o Mundo Inferior e o reino da Morte.

Não é incomum ver Lilith sendo referida como uma deusa protetora, uma força de regozija extático. Em relação a tal natureza exultante de Lilith, observaremos um texto ugarítico que fala da variedade de demônios femininos e influências hostis e ver como ela é percebida:

3. Em todo mal, tua fórmula é vida, ó Marduk...
6. Na rua, eles (os demônios) são produzidos pela Terra...
7. ... tudo o que é mal, toda coisa nociva,
8. toda coisa mortal... ao Mundo Inferior retorna
10. Todo mal, toda doença, que em tua carne ou em teus músculos é encontrado
11. que o Encantador dos deuses, para que o Sábio asalluhi, de teu corpo pudesse criá-los...
16. Muitos são seus males: eu não conheço todos os seus nomes. Eles são
conjurados...
20. Ea os criou, a Terra fez com que eles crescessem grandemente
22. a vermelhidão-nociva, a amarelidão-maligna, a ahhazu,
23. ... a febre, almu e allamu, a enxaqueca e a dor de cabeça
26. a alu malfazeja...
27. a sassatu, a astu,
28. a labasu e a ahhazu, a hayattu, a ardat-lili
29. e a lilitu, o catarro e a gripe

Como vemos, Lilith é mencionada juntamente com uma hoste de espíritos que são hostis ao bem-estar do ser humano, e a seguir também encontramos espíritos como Namtar, epidemias, e Unna, febre, mencionados como ventos demoníacos.

Espíritos como Lilith, Lamasthu, Agrat e Mahlat são todos vistos como espíritos que estão ‘andando ao redor da casa’ e que tentam entrar no lar e causar a morte prematura de homens e crianças – ou um abatimento geral da alma e espírito — especialmente dos homens. Estamos falando do fenômeno que conhecemos como succubi.

Ao falar de Lilith e Ardat-lili, elas estão em nossos textos referidas pela mesma palavra, ou seja, o epitáfio de Ishtar, Kilili — e vistas como uma coruja sentada na janela. Diz-se que estas corujas sentadas na janela incitam as donzelas a deixarem os aposentos para se alimentarem dos homens. Estes espíritos são virgens agressivas, como narrado em um texto traduzido por Landsberger, em 1968:

Donzela, que (diferente)como outras mulheres nenhum homem fecundou,,
Donzela, que (diferente)como outras mulheres nenhum homem desflorou, ,
Donzela, que no colo de um marido não teve sua sexualidade tocada,
Donzela, que no colo de um marido não retirou suas vestes,
Donzela, cujo broche nunca foi desprendido por um belo homem
Donzela, em cujos seios nunca houve (qualquer) leite.


Como vemos, ela é uma predadora sexual — traduzida no poder da frustração sexual. É interessante observar que Astarte-Ishtar, ao compartilhar a palavra Kilili com os espíritos Lilù e Lilith revela uma conexão encontrada nos pássaros noturnos. Em Maqlû 3 também encontramos Ištaritu (devotos de Ishtar) entre as pessoas com a reputação de dominar as artes da feitiçaria e bruxaria.

É aqui, onde Astarte-Ishtar e Lilith afluem em Uma, onde encontramos a potência sexual em pleno esplendor. Aqui elas são a centelha erótica que penetra os sonhos e eclipsa o Sol – como as succubi que seduzem sob uma lua negra e a divindade que torna a terra e a carne férteis. Lilith é em si o frenesi da frustração sexual, as frias brasas das estrelas mortas e a memória do sangue sobre o fogo levado nas noitesde vento frio, onde os ramos das árvores que arranham as vidraças te seduzem a abri-las...

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Tradição, Verdade & Labor



This text was originally written in english and posted in The Starry Cave. Our english untamed readers may read the original text clicking here.


Tradição, Verdade & Labor


A idéia de ‘tradição’ está sujeita a uma variedade de interpretações — e isso não é surpreendente, dado os vários campos da atividade humana nos quais vemos esta palavra utilizada. Podemos falar de uma receita de queijo tradicional pela mera virtude de ser passada por gerações. Há uma sucessão estendida ao longo do tempo que passa adiante dado conhecimento. Neste sentido, qualquer coisa que virtualmente passou pela história pode ser entendida como tradicional.

Quando falamos de tradição em relação a culto, fé e doutrina — quando nos aventuramos dentro dos campos do sagrado e das cavernas de mistério, uma determinada visão de mundo é que está sujeita a sucessão ou transmissão.

A visão de mundo tradicional é geralmente chamada de perene e replica uma visão de mundo encantada, típica para a era pré-moderna, onde o visível e o invisível compartilhavam do mesmo espaço. A exposição mais clara da doutrina tradicional, neste sentido, é encontrada em Platão e seus sucessores neoplatônicos; poderíamos falar de uma sucessão filosófica que remonta ao início dos tempos — mas com uma referência comum em Platão e o mundo das Idéias.

O início do tempo marca a divisão entre a Era de Saturno, a era de ouro que antecede a Júpiter estabelecendo leis e o tempo. Lei e tempo existem como base para a visão de mundo moderna — ou paradigma moderno, caso prefira. A Lei se manifesta na demanda por ordem, simetria, dualidade e taxonomias normativas em qualquer campo da atividade humana, em todos os domínios possíveis. Taxonomias são naturalmente heurísticas úteis para se movimentar no mundo, mas, basicamente, a taxonomia é apenas uma tentativa de exegese descritiva daquilo que uma coisa ou objeto possa ser. Estas descrições são sempre conferidas em relação a um posicionamento específico no tempo — onde a pessoa que faz o processo descritivo é em si um produto do tempo, história, cultura e geografia. Por isso a taxonomia tende a estabelecer o mesmo a partir do outro, isolar algo ao rejeitar sua ligação com outras coisas.

A ordenação tradicional se diferencia da taxonomia moderna por estar enraizada nas idéias, princípios eternos que podem se manifestar em incontáveis variações. Ao invés de descrever uma manifestação em relação a outros objetos e coisas manifestas, ordem busca revelar a origem, a natureza essencial do manifesto. É uma visão baseada na percepção vertical e não na percepção horizontal tão típica das leis e tempo que regem a era moderna.

Isto significa que a tradição, a fim de ser tradicional em um contexto sagrado, deve estar arraigada em uma conexão com a fonte e as idéias eternas. Isto vem com uma hierarquia muitas vezes apresentada como uma corrente dourada do ser, onde a mente pura emana idéias eternas até atingir a manifestação. A manifestação é um complexo, pois todas as coisas manifestas são compostas de várias idéias — no entanto, com uma essência inerente que lhes dão um sentido particular.

A visão de mundo tradicional é como o pólo situado em uma visão cósmica e na compreensão de todas as coisas emanando do Um, e finalmente, criando o vasto campo da experiência humana. A experiência humana é um binário. Ao andarmos pelo mundo da experiência, também estamos gerando o nosso próprio mundo interno. Há dois planos diferentes — mas certamente nosso mundo interno evoca as idéias eternas, ainda que na forma de uma mistura, um agrupamento. A bússola para organizar nosso mundo interno é a psique ou alma, e eros. A alma é a extensão divina em todos os seres humanos e eros é a própria força da criação manifesta no amor, avidez, atração e rejeição.

Nosso mundo interior é novamente um binário — ou melhor, uma encruzilhada — pois é mediada pela a alma que encontramos em um dado conjunto de predisposições no organismo humano e no momento que temos a nossa primeira respiração, quando somos confrontados com um ambiente e mundo único. Nossa alma divina e as faíscas da vida interior começam sua jornada em direção a autodescoberta.

A jornada humana, com todo o seu amargor e dulçor, rejeição e atração, amor e miséria, é o que faz a nossa condição humana. Temas gnósticos típicos vêem o mundo da matéria como uma prisão, ou como o próprio Inferno. Também pode ser visto como uma aventura, onde qualquer um se torna herói e tolo, ou como uma piada cósmica. Não importa qual idéia abraçamos para vincular a tela da experiência humana, a condição permanece — e com esta a jornada rumo ao Self.

Tal jornada está nas premissas tradicionais, feita com o auxílio do coração ligado à fonte e uma alma acompanhada por daimons. Esta jornada é para o homem moderno uma corrida de ambição e depressão, onde o propósito é visto na aclamação e aceitação social. Não existe conflito per se nisto, exceto que o homem e a mulher tradicional saberão por que as escolhas são feitas e as estradas são tomadas e não buscarão a ambição pela ambição — mas porque isto era o que estava reservado pelo o seu próprio Destino.

Há uma aceitação da doutrina sagrada e ordem celestial na perspectiva tradicional, uma certa humildade diante da Verdade que pode provocar o presumível orgulho do espírito da modernidade, que descarta o Destino e o Caminho em favor da ambição e da auto-glorificação. Em vez de encontrar seu Self, há uma tendência de se criar um Self que só possui um valor temporal, passageiro, vazio de uma virtude eterna.

Uma perspectiva tradicional terá o foco na Verdade — a Verdade em si como algo dinâmico e ativo, e muito pouco das taxonomias modernas que visam a separação e oposição. A Verdade é sempre Uma — e possui muitos raios e radiações, pois a natureza da Verdade é entender pela virtude da sabedoria, e sabedoria é o que move as idéias eternas. E ao fim somos deixados nas Encruzilhadas da vida, com as cadeias de escolhas que nos aproxima do Self ou se afastam dele. Sobre estas duas perspectivas e seus paradoxos, William Blake diz o seguinte:

Uma Imagem Divina

A Crueldade tem um coração humano,
E a Inveja uma face humana;
O Terror, a divina forma humana,
E o Segredo a roupa humana.

A roupa humana é forjada de ferro,
A forma humana é de fogo forjada,
A face humana estabelecida em um forno,
O coração humano em uma garganta faminta.

Eternidade

Aquele que se prende ao prazer
Destrói a alada vida;
Mas aquele que beija o prazer enquanto ela voa
Vive no alvorecer da eternidade.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Abordar com Interesse

Este texto é uma tradução do original 'To Approach with Interest', postado inicialmente no blog The Starry Cave.

For our untamed english reader, please read click here to enjoy a great journey into the teachings of Ifá.



Abordar com Interesse
por Nicholaj de Mattos Frisvold

O alicerce da filosofia de Ifá é de que todos nós nascemos bons e abençoados e que somos seres divinos em uma jornada humana. A jornada humana é simbolizada pelo mercado e pela viagem em si. O mercado é um local onde o bom e o mal podem ser feitos, onde roubos e verdades se misturam. A viagem em si significa um movimento de um lugar para outro, onde no entremeio o inesperado pode ocorrer. Ifá diz que no final de qualquer viagem bem feita, há uma cama de paz e tranquilidade para aqueles que utilizaram iwá rere (bom caráter) como suas bússolas nesta viagem.

Ifá ensina que a criação foi causada pelo o sonho da luz que se tornou visível no odu Eji Ogbè, que significa a elevação de ambas as mãos em direção ao céu – pois com o nascimento da luz veio também o seu contraste, Òyèkú méjì, que significa escuridão, o fim dos ciclos e a inalação que faz de Ogbè ativo. A idéia de levantar ambas as mãos ao céu implica em aceitar inícios e fins, luz e escuridão, com igual reverência e gratidão.

O omo odu Ogbè’wori fala da necessidade de transformação no mundo, sobre como não podemos reconhecer a doçura do mel a menos que também tenhamos sentido a amargura do orogbo (o amargor da noz da cola). Um dos versos nos conta:

Ogbè’worí
B’áye wón ba ndùn
B’áye wón bá ndàra
Ìwá ibàjé wón nhú


Tradução:
Quando a vida é doce para eles
Quando a vida é boa para eles
É quando eles começam a se comportar mal

O infortúnio e as complicações não são necessariamente a mesma coisa; uma complicação pode se tornar um infortúnio se abordarmos com resistência e negatividade. Quando assim o fazemos, alimentamos a complicação em nossa vida com orações pedindo para que mais complicações sejam trazidas para nós. No entanto, se abordarmos com interesse e tranquilidade, alimentamos as complicações com luz e bondade.

Ifá é inflexível quanto a importância da ancestralidade; na verdade, todo o corpo de Odu Ifá é a sabedoria dos ancestrais. Ao tomar consciência das situações no passado e suas soluções, podemos efetivamente transformar situações indesejáveis em prosperidade, as complicações em abundância. Outro verso no livro de Ogbé fala sobre como o próprio Orunmila saiu em viagem encontrando o infortúnio, e não a abundância que ele procurava. O verso conta como ele saiu das águas de sua confusão emocional e pediu em lamento aos ‘dezesseis donos do mercado’ pela ajuda do pássaro chamado Agbe (Touraco Musophagidae). O pássaro azul Agbe é um anunciador de boa fortuna e diz-se expor os tesouros escondidos de Olokun, o dono do Oceano, quando a ele é solicitado. O verso também fala sobre como Orunmila fez o sacrifício apropriado, neste caso uma mudança de atitude, onde sua consciência errática foi acalmada e neste calmo estado de espírito ele foi capaz de lembrar da longa corrente de vitoriosas conquistas que o levaram a este momento difícil.

O ensinamento é que as complicações em nossa jornada rumo à abundância também convidam a uma oportunidade ímpar para outras formas de vitória - enquanto nos aproximarmos com interesse e não com resistência, pois em cada dificuldade reside a promessa da vitória. De certo modo podemos dizer que Ifá vê complicações e dificuldades apenas como uma situação – a coloração é dada pela forma que abordamos a situação. Ogbé’rosún diz o seguinte:

Ogbè’rosùn
A dífá fún Òrúnmìlà
Ifá nsawo lo àpá òkun
T’òun ìlà méjì òsà
Nílé olójà mérìndínlógún
Wón ní Baba ò nìí padà dele
Baba wá m’ekún s’ekún ìgbe
Ó fi ìyèrè se ìyèrè aro
Ó nÍ: Agbe gbé mi dele o ò Agbe
A kìí rajo k’á má dele o
Agbe gbé mi dele o
Kò pé kò jìnnà
E wá bá ni bá àrúsé ogun
Àjàse ogun l’á wá wá


Tradução:
Os ensinamentos Ifá foram interpretados
Para Orunmila
Quando ele estava indo em uma missão espiritual
Na costa do oceano
Quando ele estava no meio da lagoa
Na casa dos dezesseis donos do
Mercado
Eles disseram que Baba Orunmila nunca
Voltaria para casa
Mas ocorreu que Baba Orunmila começou
A chorar de forma poderosa, transformando
Seu choro em um grito alto
E ele converteu seu lamento em um canto
de tristeza
Ele bradou, dizendo: pássaro Agbe, leve-me para casa
Oh Agbe
Nós não vamos a uma viagem de modo que não possamos
Voltar para casa
Então, pássaro Agbe, por favor, leve-me para casa
E depois, em pouco tempo e em um futuro não muito distante
Venha e junte-se a nós na vitória alcançada
Através do sacrifício
Vitóriosos na dificuldade, como chegarmos a ser

sexta-feira, 9 de março de 2012

A Tinta das Estrelas

You, our untamed english reader, may read this starry text, The Ink of Stars, from the original source, the Starry Cave, clicking here.


A Tinta das Estrelas
por Nicholaj de Mattos Frisvold


Nada acontece ao homem que a natureza não o tenha preparado para suportar.
(Marcus Aurelius)

O homem moderno constantemente tenta com muito esforço compreender o mundo, a dar sentido à sua posição no mundo – com a razão de sua experiência de mundo ser como é. É constantemente um exército de perguntas que invadem a vida do homem moderno; questões enraizadas na pergunta ‘por que’ as coisas são como são. Para os tradicionalistas estas questões eram facilmente respondidas – tudo se tratava de olhar para as estrelas e perceber a marca celestial ímpar que o fez ser quem você é.

A astrologia teve um avivamento conforme entravamos na era moderna – mas neste avivamento as considerações práticas e pragmáticas da astrologia foram esquecidas, e a astrologia foi reformada segundo os desejos do homem moderno. Ela se tornou uma ferramenta para a busca da alma – para revelar quem realmente somos – porém, a astrologia clássica está disposta de forma a fornecer todos os indícios em torno de sua vida e sonhos, para que seja possível você perceber quem você é. Deixe-me dar um exemplo atual bem próximo do coração de muitos homens e mulheres – como entender o sofrimento, os sonhos e o destino?

Nossa vida é aquilo que imaginamos ser. São nossas esperanças e sonhos, nossos medos e pesadelos que se unem como algo único para trazer à existência o caminho particular que poreja diante de sua Alma. A Imaginação é a matéria da criação – o que somos capazes de imaginar é um potencial a ser usado, abusado ou descartado.

Na astrologia clássica, a 11ª casa, de acordo com Júlio Materno, é a casa de nosso bom daimon, e a 12ª de nosso mau daimon – daí vemos a natureza afortunada da 11ª casa e o infortúnio atribuído à 12ª. Estas duas casas servem como um suporte para a 10ª, que revela o que o Destino e a fama podem nos dar. É nesta tríade que o drama de nossa vida se desenrola.

Abu Mash’ar diz que a 11ª casa é a casa da esperança, fortuna, riquezas e fama, enquanto a décima segunda é relacionada ao sofrimento e inimigos. A décima é relativa aos deveres, reputação e fortuna – é uma casa real, o reino das memórias. Tudo isso nasce a partir da primeira casa, nosso horóscopo, definido pelo signo ascendente – ‘o regente sobre o corpo e a vida do próprio homem, e todos os seus empreendimentos’ (Introductions to Traditional Astrology. Cazimi Press. p. 71).

Nossos sofrimentos e esperanças, nossos inimigos e verdadeiros amigos são todos conseqüências do ditame de Destino na 1ª casa, onde a 10ª nos dá a  fórmula e restrição para alcançar a plenitude de Destino. Há certo jogo entre imaginação e manifestação na 11ª e 12ª casas que são, em última análise, dependentes das regras do jogo dadas na 10ª para efetivar com sucesso o Destino dado na primeira casa.

Isso significa que todos somos variações únicas das possibilidades divinas escritas com tinta estelar nesta terra. A congregação dos daimons que chegaram ao nosso nascimento marca nossa estrela ascendente – ela nos dá a dinâmica particular que encobre o self (eu) e nos ajuda a desenvolver a individualidade. Mas os regentes de nossa vida e corpo não são nossas almas. Nossa alma reside na 11ª casa… que é a casa do amor.

Não importa o que o Destino determine, amor e eros é aquela evanescência daemônica que nos coloca em alinhamento com o self (Eu) e Destino. Um guerreiro governado pelo ódio é dominado pela 12ª casa – ele cumprirá seu dever por meios que levem ao sofrimento. Um guerreiro dominado pela 10ª casa terá um claro senso de propósito e estará pronto para aceitar seu Destino a qualquer momento.

Ser fiel ao Destino jaz na habilidade de fazer o que fazemos como se fosse nosso último ato – há um abandono imprudente nisso e como deveríamos abordar a vida. Isto se apóia na crença de que o que quer que aconteça, assim há de ser porque assim o imaginamos, ou por determinação de Destino – de qualquer forma, é relacionado à forma como acolhemos Destino e as conseqüências – como crianças e desajustes de nossa própria criação.

Certamente podemos escolher viver em ilusão – imaginando nossos próprios falsos amigos – mas isso convocará a ação da 12ª casa em nossa vida e o sofrimento será nossa maldição. É melhor tratar tudo o que ouvimos como opinião, e tudo o que vemos como perspectiva, pois assim podemos nos reservar ao conforto da alma à busca da verdade, descansando seguros de que o que quer que tenhamos como fardos e bênçãos, Destino sabe exatamente que podemos carregá-los ao trono de Feliz Destino.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Da natureza das Deusas Mães

A mãe que concede ao filho o aconchego, a nutrição e as condições necessárias para a criança cresça é a mesma que guarda dentro de si o desapego e a frieza capaz de matar sua cria.

Este aspecto pouco visto e mostrado das Deusas Mães é o tema abordado pelo novo post do blog Cerealia. 

"Está no âmago das deusas mães da terra a natureza dúbia da maternidade - as que criam e que destroem, as que ganham e que perdem, sempre."

Neste post, a autora abordando o papel das deusas mães, observa que num papel de deusa mãe, aquela que apenas cria - e nunca destrói - é uma deusa incompleta, pois a mãe que possui o poder de dar a vida, é a mesma que possui o poder de tirá-la:

"Para punir homens e deuses, Deméter faz com que não haja colheita. Ou seja, sem alimento,  a mãe priva seus filhos de sua parcela de vida. A nutridora se transforma naquela que nega, que pune e que faz com que todos morram pela privação. Esse é o lado negro de um dos aspectos de Deméter: a mãe que nega sua natureza essencial de nutridora. E com isso traz a escassez e a morte. Eu não acredito em deuses feitos inteiramente de bondade, que cuidam de todos e que amam seus filhos. Dentro dessa perspectiva é muito natural que Deméter seja a mãe que nutre e que mata".

O assunto parece bem simples, mas ele abre um leque abrangente - e polêmico - de diversos outros assuntos. Para ler o texto completo, visite o blog da autora, Cerealia, ou clique aqui.


terça-feira, 28 de junho de 2011

Entre a História e os Histéricos

Enquanto pessoas honestas fazem estudos sérios e produzem textos coerentes, muita (des)informação circula pela internet. Raciocínio circular, deturpação dos fatos e [por que não dizer] sofisma são proferidos por supostos gurus, sacerdotes e bruxos de pataquada, discursando sua pequena e limitada visão do que é a Bruxaria, arrogando a si mesmos uma autoridade discutível e risível.

No intuito de divulgar informação, fatos históricos e artigos coerentes no aspecto histórico, antropológico e folclórico, eu disponho aos amigos e leitores do Bruxaria Tradicional os links com as transcrições da Revista de História Biblioteca Nacional.


Boas leituras!